Incessante

A vida nos mostra desde cedo como ela funciona. Sim, ela vem com um manual. Só que precisamos aprender a decifrá-lo.
Já nascemos chorando. E não é pelo acaso do destino, que ao vir nesse mundo, a única coisa que nossos olhos conseguem fazer é transbordar lágrimas que fazem doer o peito.
A vida é mais inteligente do que pensamos. Ela nos prepara para o pior porque sabe que a partir daquele momento, nós assinamos a nossa sentença e somos obrigados a nos relacionar com alguém. Precisamos ter em mente que as pessoas nos decepcionam desde cedo. E que ninguém pode ou vai mudar isso.
Iremos ficar tristes por querer ver aquele filme adolescente ou o programa de TV que passa depois das 22h, mas não podemos porque aquele já será o horário de estarmos na cama. E então choramos, mas acabamos entendendo porque é para o nosso próprio bem. Mesmo que só entendamos mais tarde.
As nossas lágrimas não deixaram de cair quando nós, ainda sem noção do que é viver, queremos muito uma coisa, esperneamos e gritamos, mas os nossos pais ainda não recebem o suficiente para isso.
E aquele joelho ralado que ganhamos porque subimos numa árvore alta demais brincando de esconde-esconde. E então choramos de novo porque o Merthiolate não ia arder, mas arde.
Tem o melhor amigo que todo mundo faz desde cedo na época da escola, que cresce junto, brinca junto, briga junto e até dorme junto porque a inocência é mais alta que a malícia de pensar em qualquer outra coisa. E corta o coração quando percebemos que outra pessoa está fazendo nosso papel e a amizade já não é mais a mesma. Chega então a primeira queda brusca de autoestima, sem que possamos ao menos saber o que é isso.
E continuamos chorando porque a dor da troca é mil vezes mais intensa do que qualquer outra dor. Mesmo que nem saibamos o que de fato é dor. Porque só sabemos que queima o peito, a cabeça... E que a garganta de repente entala. Dizem que a dor é somente no peito, mas sentimos reflexo dela pelo corpo todo. Aprendemos isso mais tarde e nunca mais desaprendemos, pois é algo constante em nossas vidas.
Mas de tudo, de todas as decepções que estamos sujeitos a enfrentar nessa vidinha medíocre, só uma vai ser mais dolorosa que todas: Quando nos pegarmos sem querer, afundando no olhar de alguém. Dali em diante, teremos a decepção de não termos mais oxigênio o bastante. E toda essa decepção vai acarretando outras.
Quando entregarmos nosso coração para alguém, e não recebermos nem uma artéria entupida em troca. Só isso vai fazer cada veia do nosso corpo doer sem cura. Cada músculo presente esticar e retrair em fração de segundos, feito um ioiô.
Lágrimas vão escorrer feito vírus se espalhando pelo corpo, combatendo de vez todos os nossos anticorpos.
Somente esse choro, o único que vai parecer indomável e incessante. Porque dessa vez, não iremos chorar por termos nascido, e sim, porque algo dentro de nós morreu.

Quanto mais teremos que nos matar, para nos tornarmos vivos enfim?

4 comentários:

  1. Esse texto me fez recordar de várias situações pelas quais passei e chorei. Amei!!
    Um ótimo final de semana!!
    Beijos

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    1. É bom ter essa identificação que os meus textos proporcionam.
      Esse blog é feito por base do que sinto. E é bom saber que serve de lembranças/consolos/conselhos/afagos para os meus leitores.

      Igualmente, beijos! <3

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  2. É, sempre tive o mesmo pensamento sobre o porquê de os bebês nascerem chorando.
    Amor não correspondido é muito ruim, mas eu já cheguei em um momento da vida em que eu não me apego a ninguém, então não sofro. Resultado: muitos rolos e muita confusão.

    Adorei seu blog, especialmente por serem textos seus. Me lembram os que eu escrevi quando era adolescente e um blog pessoal que eu tenho, como um diário. =)

    Beijos!
    Chiquereza

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    1. Na vida como tudo é difícil, temos que encontrar nossos "escapes" para que isso a torne mais suportável.

      Fico feliz que tenha gostado. <3 Tenho esse blog como terapia pr'alma.

      Beijos!

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