Primavera

Passei a minha vida toda buscando ser como as estações. Porque sempre me vi em mudanças constantes.
Certa manhã, ouvi o vento soprar fortemente em minha janela. Havia acordado com a pressão dele contra ela entreaberta.
Certamente era uma manhã de final de outono para começo de inverno.
Não haviam mais folhas pelo chão, somente os restos delas.
Só haviam brisas frias e fortes, um céu que se assemelhava ao meu travesseiro encharcado, por uma noite inteira e intensa de lágrimas sobre ele.
Eu costumava sair quase todas as tardes pra uma caminhada pela cidade. E nos dias de "quase inverno" eu sentia as maçãs do meu rosto corarem, feito raios de sol deitando sobre a pele num dia de verão.
Mas era começo de inverno, e eu só sentia o meu corpo esfriar assim como o que você dizia sentir por mim.
Você observou as estrelas comigo naquele mesmo dia. Era uma noite fria, céu aberto, e você demonstrava firmeza ao falar sobre a posição das estrelas. Me apontou a mais brilhante que havia, e eu sem graça, não fiz nada além de cruzar os meus olhos com os seus. Numa tentativa falha de disfarçar a minha vontade de ter caído como uma estrela cadente em seus braços. E ter me perdido no vácuo do seu universo particular.
Me vi então, caída como folhas num entardecer de outono. Ao mesmo tempo, enraizada como uma muda sobre a terra.
E permaneci assim, até poder novamente me jogar no abismo do seu peito. E naquela mesma noite, você me chamou para nele entrar.
Fiz da sua vida a minha casa na árvore. E de repente senti borboletas no jardim do meu estômago. Calor na alma e no rosto por timidez. Minhas pernas trêmulas e arrepiadas como quando uma ventania se aconchega sobre os nossos corpos. E os meus lábios secos como um Plátano que decidiu deixar suas folhagens irem embora, para que outras pudessem ter a chance de nascer.
Senti todas as estações misturadas ao mesmo tempo agindo dentro de mim.

Passara algum tempo, era primavera. Os pássaros vinham gentilmente cantar sobre a árvore perto da janela do meu quarto. Eu a abria, e numa delicadeza sem tamanho, voavam para seus ninhos. Local onde encontravam afago, calor, carinho.
E então o meu dia havia começado bem. Havia.
No momento em que me levantei e olhei no espelho, notei que o meu jardim interior estava cheio de sementes, mas você não teve paciência de me esperar florescer.



13 comentários:

  1. Estar sozinha é uma opção. Mas as sementes não sabem demonstrar gratidão pelo seu agricultor.

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  2. Que texto maravilho haha Ta de Parabéns.Beijão e sucesso

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  3. Parabéns vc tem dom para escrever <3 http://victoriasilibertoblog.blogspot.com.br/

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    1. Fico imensamente feliz em ler isso! <3 Muito obrigada, viu?!

      Beijos!

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  4. Que texto maravilhoso, você escreve tão bem!!! 👏🏻

    www.kamillasouza.com.br

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    1. É tão bom saber que o que produzimos com amor, é bem visto aos olhos dos leitores... <3

      Beijos!

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  5. que texto lindo flor bjs <3

    http://patriciaoliiiveira.blogspot.com.br/2016/05/ouvindo-marcela-tais.html

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  6. Flor, que texto lindo! Parabéns! Um super beijo

    www.liliacomn.com.br

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